Chez Cultura

CINEMA
Por: Bruno Mello Castanho

Um filme canalha




Se há algo que salta aos olhos em “A Chef in Love” - tradução difundida do filme “Shekvarebuli Kulinaris Ataserti Retsepti”, realizado na Geórgia, em 1996, por Nana Dzhordzhadze – é a superficialidade com que lida com as questões históricas e relações humanas. Para além do fato de ser uma comédia romântica daquelas bem insossas e repleta de amenidades pueris, é canalha na maneira como torna rasteiro todo e qualquer debate. A sua trivialidade transborda dos próprios conteúdos e atinge a forma, o que se evidencia através da importação de recursos enlatados do cinema norte-americano, sem ao menos reutilizá-los criativamente.
 
“A Chef in Love” situa-se na Geórgia, em dois tempos históricos distintos, o presente, quando o filme foi realizado, e os anos de 1920, nos quais a Geórgia passa ao domínio da União Soviética, após ser tomada pelo exército vermelho. É no presente, que o artista plástico Anton, às vésperas de estrear uma nova exposição, é convocado para uma visita a Marcelle, uma fotógrafa gastronômica, que irá lhe mostrar escritos guardados do renomado chef de cozinha francês Pascal Ichak, que é tio de Marcelle e autor de um famoso livro de culinária georgiana. Eis aí a desculpa para se recorrer ao banalizado recurso do flashback, que será alternado com as conversas narrativas entre os dois, para no final descobrirmos "surpresos" que o chef francês é pai de Anton.
 
 
Durante os flashbacks, passamos, então, a acompanhar episódios da trajetória de Ichak, após conhecer e se apaixonar por Cecília, uma das princesas da Geórgia. É ao seu lado que ele perambula pelo país do Cáucaso, em busca de novos sabores e levando uma vida de verdadeiro “bon vivant”. Quase como um romântico ou renascentista da gastronomia, ele percorre campos de uvas; experimenta iguarias da região, como o kupati; bebe em um só gole 8 litros de vinho, dentro de um chifre de boi; até abrir o restaurante Eldorado, onde irá cozinhar os pratos típicos do país: pato com amêndoas amargas, língua defumada, faisão com pistaches e outros requintes reservados para os mais abastados e, portanto, com evidente distinção social do paladar.
 
 
Ironicamente, a metade final do filme é praticamente uma defesa da permanência dessa alta gastronomia, sempre para privilegiados de classe, enquanto espaço gourmet, como gostam de dizer. A maneira como retrata a tomada da Geórgia pelo exército vermelho, sem qualquer relativização a respeito da degeneração dos ideais comunistas, principalmente durante o período de Stalin, simplifica de tal maneira as questões ideológicas, que restam algumas pinceladas morais sobre uma caricatura grosseira do que seria o comunismo: um grupo de homens autoritários, que cantam a internacional em um banquete, ao lado de mulheres masculinizadas (exclusivamente porque são comunistas), e que são todos contra a “arte gastronômica”. “O comunismo desaparecerá um dia, a boa cozinha não”, diz Ichak, em determinando momento, com ar de artista esclarecido, mas esquecendo-se que o comunismo nunca chegou efetivamente a existir para desaparecer, e que a ideia de comunismo continua viva sim para matar o que se chama hoje de alta gastronomia, pois, no comunismo por vir, os banquetes serão abundantes e para todos. E aí sim a gastronomia será arte verdadeira.