Chez Cultura

CINEMA
Por: Bruno Mello Castanho

Um filme moderno




“A arte pela arte!”, bradam os pós-modernos. E é nesta máxima que se ampara o filme que trago para esta coluna. Dirigido pelo holandês Alex van Warmerdam, “Garçom” (2006) é o reflexo puro de um tipo de questionamento vazio, que busca investigar osuposto campo das abstrações existenciais. Se há momentos interessantes e potenciais para a fuga dos clichês, o longa acaba deixando-os encobertos pelo fetichismo esquemático. Talvez seja o apego ao exotismo de sua fórmula narrativa, que enfraqueça o drama de sua personagem, um garçom – interpretado pelo próprio diretor – prestes a completar 25 anos de profissão. 
 
É em torno das atividades rotineiras do garçom que mais uma faceta gastronômica surge no espaço desta coluna: a daqueles que estão no restaurante para aos outros servirem. E a crítica e desdobramentos desta relação de subserviência são responsáveis pelas sequências mais fortes do filme, aquelas que abandonam o mero esquematismo. Mesmo o uso de certo teor surrealista, que muitas vezes parece buscar justificativa no próprio recurso, surge vez ou outra como uma anotação dialética a respeito das relações sociais dadas. Portanto, é no microcosmo do restaurante que se reforçam as possibilidades de explorar mais profundamente as inquietações de Edgar. Há também algumas cenas de humor requintado, como é o caso daquela em que o garçom Edgar compra um arco e flecha. 
 
 
Logo no início, nos aproximamos da realidade desta personagem, ao acompanhar sua movimentação de trabalho em um requintado restaurante. Entre diversas situações, um cliente o chama, para reclamar, de forma agressiva, que a costela está crua, perguntando ironicamente se acha que ele é uma hiena para comer aquilo. É a ação necessária para entendermos a naturalidade com que, em seguida, Edgar derruba sem querer a costela, ao lado do vaso sanitário que o colega Walter utiliza, e pede para ele chutá-la de volta para fora do banheiro, colocando-a no prato e levando-a para o cliente. Talvez uma atitude não inserida em um padrão moral, mas com certeza ética, pois envolve a maneira como a relação é estabelecida. A gentileza vira obrigação social e perde o caráter de amabilidade.
 
Edgar é um garçom que tenta justamente subverter essa cordialidade, exagerando na sinceridade ao dizer, por exemplo, a um cliente que hoje em dia nada é fresco, mas sim congelado. Ou então, um homem pede fígado e ele diz “eu não faria isso”. O freguês retruca que está no cardápio e ele rebate “em minha opinião não deveria estar, mas não mando aqui”. Porém, são esses desajustes que fazem, por exemplo, que em determinado momento um cliente o obrigue a ser educado e dizer: “senhor, realmente recomendo a salsicha alemã. É bem macia, feita por uma empresa familiar na Bavária”. Em seguida, é espancado por um grupo de executivos que exigem simpatia dele. Em decorrência desses infortúnios, Edgar vai atrás do escritor que está escrevendo sua história para reclamar de tanta má sorte e por não reagir às humilhações. A resposta é “você não pode vir aqui, você é ficção”. 
 
A partir daí, “Garçom” se esvazia ao insistir na metalinguagem e colocar o roteirista como personagem. Passamos a acompanhar a história da história e os desdobramentos escolhidos pelo “Deus-escritor”, que determina os próximos passos da narrativa. A reflexão simplista passa a ser “e se tivemos acesso àquele que controla a nossa vida? O que faríamos?”. No entanto, a insistência nesse contato criador versus criatura cai na própria armadilha do roteiro que não sabe mais para onde ir, materializando o problema do roteirista-personagem. O recurso se perde em si mesmo no momento em que o escritor dorme em cima da letra “e” do teclado e Edgar passa a gritar “e” por alguns segundos. Em uma das cenas finais, o garçom indaga seu criador: “quem sou eu? Não tenho ambições, sonhos? Eu vagueio”. E a resposta é “você é um personagem moderno”. É válida aqui, talvez, a mesma resposta ao longa: você é um filme moderno. Cabe a cada um avaliar o quão bom é isso. 
 
 
CINEMA IMPERDÍVEL NA SEMANA
 
Mostra “Jairo Ferreira – Cinema de Invenção” – Até o dia 12 de fevereiro, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) apresenta um panorama dedicado ao cineasta e crítico paulistano Jairo Ferreira. Serão exibidos todos os filmes dirigidos por ele (dois longas, um média e seis curtas), além de mais de 20 sobre os quais escreveu e de alguma forma fazem parte de seu universo. Entre os filmes realizados por Jairo, destaque para o curta-metragem “O Guru e os Guris” e o cultuado longa “O Vampiro da Cinemateca”. Na seleção também estão presentes clássicos como “Limite”, de Mario Peixoto, “A Margem”, de Ozualdo Candeias, “A Mulher de Todos”, de Rogério Sganzerla, “Ritual dos Sádicos”, de José Mojica Marins, “Filme Demência”, de Carlos Reichenbach, entre outros. Os filmes dirigidos por Jairo Ferreira foram concebidos de maneira artesanal e nunca exibidos comercialmente, legítimos exercício da linguagem de “invenção”, que marcou toda sua trajetória como crítico e realizador. A curadoria é de Renato Coelho. Mais informações e a programação completa estão no site http://www.bb.com.br/cultura.