Chez Cultura
CINEMAPor: Bruno Mello Castanho
Uma bela refeição
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Além de ser necessidade fisiológica e um direito humano – mesmo que negado a várias pessoas, como aquelas violentadas recentemente pela truculência dos nossos governantes, no bairro Pinheirinho, em São José dos Campos (parênteses necessário até mesmo numa coluna de cinema) – a refeição também foi transformada, pelo homem dito “ser social”, em espaço de sociabilização, propício para longas conversas ou, por exemplo, discussões familiares. Diversos são os filmes que exploram essa faceta do deleite gastronômico – alguns deles já presentes neste espaço –, mas eis que a descoberta de “Meu Jantar com André” (1981), dirigido pelo cineasta francês Louis Malle, me proporcionou contato com aquele que talvez seja o melhor exemplar de diálogo filmado em uma refeição. Durante seus 110 minutos, quase que exclusivamente transcorridos num jantar, o longa proporciona verdadeiro envolvimento do espectador com a interessante conversa entre o ator Wallace Shaw e o diretor teatral Andre Gregory.
Filmado em um hotel abandonado – o que impressiona também pela eficiência ao reproduzir o ambiente de um restaurante luxuoso –, “Meu Jantar com André” traz a inusitada proposta de se propor ficção, mas ao mesmo tempo trazer um roteiro criado pelos próprios atores que, durante três meses, saíram para jantar e conversar sobre a vida, buscando os melhores assuntos e posicionamentos que seriam trazidos ao filme. Porém, por mais que os dois também vivam personagens com os seus nomes reais, Louis Malle opta por uma conveniente mescla entre elementos documentais (opiniões dos próprios atores) e desdobramentos ficcionais (construídos em roteiro e discutidos entre os três). Além disso, a escolha dos planos e a atuação dos protagonistas impedem que o resultado final se aproxime de algo teatral, o que seria natural para um roteiro tão amparado no diálogo. No entanto, a precisão da decupagem de Malle ora nos afasta e ora nos aproxima da narrativa, contribuindo para o sentimento de que também estamos sentados à mesa, entretidos e, o melhor, incomodados com o papo.
![]() Wallace Shaw interpreta um ator e escritor de peças teatrais frustrado, mas conformado com as coisas simples da vida, enquanto Andre Gregory é um diretor que já esteve no auge da carreira e hoje busca experiências de alguma forma transcendentais. No entanto, o reencontro dos dois em momento algum é maniqueísta, marcado meramente pela diferença de pensamento. A conversa segue de forma dialética e o espectador também emerge em tal experiência, confrontando os argumentos e trocando o tempo todo de posição para ao final ter ido além da simples apreensão do conteúdo. Saímos deste jantar inquietos e criamos novos conteúdos, que talvez nasçam da própria experiência antropofágica. A primeira hora de filme é praticamente um monólogo de Andre, que discorre sobre suas experiências pós-modernas com aquilo que poderia ser chamado de teatro da vida – uma extensão da improvisação cênica para além do personagem, inspirada no pensamento do diretor polonês Jerzy Grotowski. Entre as vivências, há o relato de um período de jogos teatrais em uma floresta na Polônia e até mesmo um proposital encontro com a morte ao ser enterrado vivo em uma noite de Halloween. São sequências de certo estranhamento, mas que nos levam a buscar entender o que ele diz.
É a entrada propriamente dita de Wallace na discussão que nos aproxima definitivamente da contenda, exigindo-nos uma postura mais ativa, de enfrentamento às ideias colocadas. Ao mesmo tempo, “Meu Jantar com André” também sugere questionamentos metalinguísticos, já que grande parte do diálogo se dá em torno de reflexões acerca do papel do ator, da necessidade da arte e sua relação com a vida, nos fazendo questionar a própria postura enquanto espectador. As referências e citações filosóficas e artísticas também são inúmeras, com alusões a Bergman, Walt Withman, André Breton, Antoine de Saint-Exupéry, Herman Melville, George Orwell, Martin Heidegger, Arthur Shopenhauer, entre outros. Apesar disso, as bases teóricas também são construídas no momento, trazendo novos conceitos e uma apropriada oposição entre idealismo e materialismo, que revela as contradições inerentes ao próprio discurso de cada um. Também chama atenção, a oportuna obsessão de Andre Gregory por discutir o regime nazista de Adolph Hitler, buscando uma compreensão da esquizofrenia humana e comparando Nova York a um novo modelo de campo de concentração, construído pelos próprios internos. Assim, surge a metáfora de uma sociedade que oprime seus próprios anseios e busca confortos materiais - como o de um cobertor elétrico - para compensar a crise ideológica. Da mesma maneira, Wallace questiona qualquer tipo de previsão, pois “se você acredita em presságios, o futuro está de alguma forma nos enviando mensagens para trás, o que significa que ele já existe”. A aparente simplicidade do silogismo revela a contradição da ideia de predestinação, já que se tal futuro já existe não há porque pensar em mudanças estruturais. Portanto, a escolha do restaurante como ambiente é coerente ao trazer questionamentos a esse embate, já que a própria necessidade de comer para saciar a fome é confrontada com o fetiche de pedir um Terrine de Poisson ou mesmo a força do hábito de comer simplesmente para se empanturrar. Não há apreciação estética da gastronomia enquanto arte, mas sim a obediência a códigos sociais. Por fim, não é desproposital a citação ao dramaturgo Bertold Brecht, já que Louis Malle consegue admiravelmente tratar o jantar de forma épica. Além de trazer um prólogo e epílogo para a narrativa, o cineasta joga com o distanciamento dos personagens, impedindo a total identificação com os dramas vividos e sem qualquer encadeamento cronológico dos relatos.. Da mesma forma, a própria movimentação e intervenções dos garçons, que retiram pratos, servem bebidas ou perguntam se os dois querem sobremesa, são elementos internos de distanciamento, responsáveis por pausas dramáticas. O espectador é obrigado o tempo todo a tomar decisões, trazendo uma postura crítica e a consciência de sua condição enquanto ser social, representado no palco burguês do restaurante de luxo. CINEMA IMPERDÍVEL NA SEMANA
Mostra “Isto é Cinema” – Até o próximo domingo (29 de janeiro), o Cine Olido exibe 23 filmes que trazem reflexões sobre o próprio cinema. A proposta de se debruçar sobre a metalinguagem está também atrelada a questionamentos em torno da cinematografia brasileira e das tentativas de se criar uma indústria nacional. Entre os filmes selecionados para compor este panorama estão: “Eterna Esperança”, de João Batista de Andrade, que traça irônico retrato da tentativa de se criar, nos anos de 1930, a Companhia Americana de Filmes; “Sonho sem Fim”, de Lauro Escorel, sobre o gaúcho Eduardo Abelim, um dos pioneiros do cinema nacional; “Tudo é Brasil”, de Rogério Sganzerla, que traz à tona investigações sobre o filme “It’s All True”, rodado por Orson Welles no Brasil, em 1942; “Person”, documentário sobre a vida do cineasta Luiz Sérgio Person, dirigido por sua filha, Marina Person; entre outros longas e curtas que traçam um precioso retrato dos percalços da sétima arte no país. Mais informações e a programação completa estão no site da Galeria Olido. |


É a entrada propriamente dita de Wallace na discussão que nos aproxima definitivamente da contenda, exigindo-nos uma postura mais ativa, de enfrentamento às ideias colocadas. Ao mesmo tempo, “Meu Jantar com André” também sugere questionamentos metalinguísticos, já que grande parte do diálogo se dá em torno de reflexões acerca do papel do ator, da necessidade da arte e sua relação com a vida, nos fazendo questionar a própria postura enquanto espectador. As referências e citações filosóficas e artísticas também são inúmeras, com alusões a Bergman, Walt Withman, André Breton, Antoine de Saint-Exupéry, Herman Melville, George Orwell, Martin Heidegger, Arthur Shopenhauer, entre outros. Apesar disso, as bases teóricas também são construídas no momento, trazendo novos conceitos e uma apropriada oposição entre idealismo e materialismo, que revela as contradições inerentes ao próprio discurso de cada um. Também chama atenção, a oportuna obsessão de Andre Gregory por discutir o regime nazista de Adolph Hitler, buscando uma compreensão da esquizofrenia humana e comparando Nova York a um novo modelo de campo de concentração, construído pelos próprios internos.
Assim, surge a metáfora de uma sociedade que oprime seus próprios anseios e busca confortos materiais - como o de um cobertor elétrico - para compensar a crise ideológica. Da mesma maneira, Wallace questiona qualquer tipo de previsão, pois “se você acredita em presságios, o futuro está de alguma forma nos enviando mensagens para trás, o que significa que ele já existe”. A aparente simplicidade do silogismo revela a contradição da ideia de predestinação, já que se tal futuro já existe não há porque pensar em mudanças estruturais. Portanto, a escolha do restaurante como ambiente é coerente ao trazer questionamentos a esse embate, já que a própria necessidade de comer para saciar a fome é confrontada com o fetiche de pedir um Terrine de Poisson ou mesmo a força do hábito de comer simplesmente para se empanturrar. Não há apreciação estética da gastronomia enquanto arte, mas sim a obediência a códigos sociais. Por fim, não é desproposital a citação ao dramaturgo Bertold Brecht, já que Louis Malle consegue admiravelmente tratar o jantar de forma épica. Além de trazer um prólogo e epílogo para a narrativa, o cineasta joga com o distanciamento dos personagens, impedindo a total identificação com os dramas vividos e sem qualquer encadeamento cronológico dos relatos.. Da mesma forma, a própria movimentação e intervenções dos garçons, que retiram pratos, servem bebidas ou perguntam se os dois querem sobremesa, são elementos internos de distanciamento, responsáveis por pausas dramáticas. O espectador é obrigado o tempo todo a tomar decisões, trazendo uma postura crítica e a consciência de sua condição enquanto ser social, representado no palco burguês do restaurante de luxo.
Mostra “Isto é Cinema” – Até o próximo domingo (29 de janeiro), o Cine Olido exibe 23 filmes que trazem reflexões sobre o próprio cinema. A proposta de se debruçar sobre a metalinguagem está também atrelada a questionamentos em torno da cinematografia brasileira e das tentativas de se criar uma indústria nacional. Entre os filmes selecionados para compor este panorama estão: “Eterna Esperança”, de João Batista de Andrade, que traça irônico retrato da tentativa de se criar, nos anos de 1930, a Companhia Americana de Filmes; “Sonho sem Fim”, de Lauro Escorel, sobre o gaúcho Eduardo Abelim, um dos pioneiros do cinema nacional; “Tudo é Brasil”, de Rogério Sganzerla, que traz à tona investigações sobre o filme “It’s All True”, rodado por Orson Welles no Brasil, em 1942; “Person”, documentário sobre a vida do cineasta Luiz Sérgio Person, dirigido por sua filha, Marina Person; entre outros longas e curtas que traçam um precioso retrato dos percalços da sétima arte no país. Mais informações e a programação completa estão no site da