Chez Cultura
CINEMAPor: Bruno Mello Castanho
Cinema anônimo
Tweet
Por mais que só acredite no primeiro deles, se há dois tipos de cinemas possíveis – um que se pretende expressão artística e outro que se veste de fórmulas enquanto entretenimento vendável -, não há dúvidas que o filme francês “Românticos Anônimos” é exemplar deste último. Nesse sentido, é transparente a proposta de servir como experiência fugaz para espectadores ávidos por amenidades. Ainda em cartaz em São Paulo, o filme dirigido por Jean-Pierre Améris oferece uma experiência dentro de uma zona de conforto, típico programa burguês, tão estimado por aqueles que buscam meramente se identificar de forma leve e bem-humorada com seus dramas pessoais, mantendo distância de qualquer espécie de conflito ou inquietação mais profunda. Dessa forma, a experiência cinematográfica se equipara ao divertimento banal e previsível. Talvez a proposta seja justamente esta e, nesse caso, podem argumentar que não cabem julgamentos morais. No entanto, a postura crítica pode servir para se distanciar do objeto fílmico, aproximando-se daquilo que está encoberto por uma estrutura esquemática.
A partir de um oportuno paralelo com a gastronomia – levando-se em conta o teor da coluna -, pode-se dizer que “Românticos Anônimos” é comparável àquela receita de bolo repetida à exaustão, nos finais das tardes de domingo, em que a cozinheira segue metodicamente uma lista de ingredientes e procedimentos que lhe dão a segurança de um bolo macio, sempre igual e que cabe na mesma forma. Assim, por mais que funcione e tenha êxito em atingir uma boa parcela do público, não há espaço para voos criativos mais intensos ou mesmo para qualquer tipo de improviso. Portanto, o importante é o sentimento de saciedade e não a vontade antropofágica de se descontruir a partir de uma experiência sensorial, que abre o apetite para novas possibilidades. O movimento é contrário a própria essência transformadora da arte, em benefício de uma postura cômoda.
![]() Logo no início, o filme nos apresenta uma personagem que canta para si mesma versos de uma canção motivadora, que lhe serve de estímulo para enfrentar a própria timidez. Angélique participa também de um grupo de apoio – tão comum em filmes americanos do gênero – onde está em contato com outras pessoas ditas emotivas, com as mesmas dificuldades para lidar com situações sociais. Uma destas circunstâncias é uma entrevista de emprego, para a qual ela se sente totalmente despreparada e entra em pânico só de pensar em ser avaliada. É assim que ela é contratada por Jean-René, chefe de uma pequena fábrica de chocolates, para ser representante de vendas, função para a qual não tem a menor aptidão, já que é uma talentosa confeiteira de chocolates, mas não tem coragem para dizê-lo. O conflito se estabelece justamente a partir deste encontro, já que Jean-René também sofre de um acanhamento crônico, principalmente nas relações com mulheres – segundo ele verdadeiras torturas. Revela-se, assim, a barreira instransponível entre duas pessoas marcadas por uma timidez patológica que beira o surreal e pela paixão por chocolates – guloseima que irá dar o tom gastronômico do filme.
Na primeira conversa entre os dois, já nasce uma identificação ao concordarem que o segredo do bom chocolate está no quão amargo ele é e isso que o diferencia de um doce qualquer – metáfora óbvia das dificuldades da vida dos dois, marcada pelo acre sabor de não conseguirem impor suas próprias vontades. O chocolate estará presente, daí em diante, em diversas cenas, mas apenas pontuando a luta de uma empresa, que beira a falência, para conquistar novos clientes e manter-se em pé. Em determinado momento, Jean-René revela guardar em um cofre os últimos exemplares de um chocolate que não sabe ter sido Angélique que fez e que “você coloca na boca e o palato se ilumina”. Em outro, Angélique ensina os funcionários da fábrica a produzir chocolates, dando dicas de como, por exemplo, picar a menta fresca ou então criar um chocolate branco com chá verde. São cenas que homenageiam de certa forma a disposição para criar e a culinária enquanto arte, mas que contraditoriamente não almejam a mesma vivacidade enquanto cinema. Uma das melhores e mais risíveis sequências do filme também está relacionada à gastronomia, quando os dois saem para jantar pela primeira vez e não sabem lidar com os códigos sociais de tal ocasião. Assim, escondem-se atrás dos cardápios, aceitam a primeira coisa que o garçom oferece e buscam assuntos para quebrar o clima de incomunicabilidade. “O que você acha da situação no oriente médio”, questiona Angélique, que guarda um bloco de anotações com possíveis temas e, em seguida, pergunta que carro ele tem. Mais pra frente, ela diz “acho que estou apaixonada por você” e a resposta de Jean-René é “que bom. Muito obrigado”. Porém, por mais que essas cenas rendam bons momentos e muitos nos identifiquemos com a timidez latente dos personagens, “Românticos Anônimos” é um irônico reflexo de sua própria narrativa. Assim como Jean e Angélique não querem correr riscos, mas sim manter uma imobilidade segura, que lhes garanta o anonimato, o filme de Jean-Pierre Améris segue à risca esta receita e parece buscar também sair despercebido e logo ser esquecido. Saímos do cinema e entendemos a recomendação do pai de Jean-René repetida durante o filme: “que nada nos aconteça”. Realmente, nada nos acontece e, se demos algumas risadas, infelizmente ainda somos os mesmos.CINEMA IMPERDÍVEL NA SEMANA
Mostra “Straub-Huillet” – Pouco divulgada segue em cartaz, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), até o dia 29 de janeiro, uma programação imperdível que reúne 40 filmes dos franceses Jean-Marie Straub e Danièle Huillet. “Straub-Huillet” é a primeira mostra no Brasil dedicada à obra da dupla de cineastas, que produziram juntos diversas obras e estiveram casados de 1959 até a morte de Danièle, em 2006. Todos os filmes serão projetados em seus formatos originais (35 mm, 16 mm e betadigital), com legendas em português. Entre as obras selecionadas estão 26 filmes que os dois realizaram juntos entre 1962 e 2006 (destaque para “Crônica de Anna Magdalena Bach”, “Da Nuvem à Resistência”, “Esses Encontros com Eles” e “Relações de Classe”); 9 dirigidos por Jean Marie após a morte de Danièle (“Joachim Gatti”, “Um Herdeiro”, “O Inconsolável”, entre outros); e 5 que mostram o processo de trabalho do casal (“Onde Jaz o Teu Sorriso”, de Pedro Costa). Conhecidos por um trabalho voltado principalmente para a adaptação de autores consagrados, como Bach, Kafka, Brecht, Pavese, Cézanne, Jean-Marie e Danièle realizam um cinema muito autoral e que chama atenção pelos planos longos e poucos diálogos. A programação conta também com debates e o lançamento de um catálogo com textos dos cineastas e ensaios sobre sua obra. Mais informações estão no site www.bb.com.br/cultura. |


Na primeira conversa entre os dois, já nasce uma identificação ao concordarem que o segredo do bom chocolate está no quão amargo ele é e isso que o diferencia de um doce qualquer – metáfora óbvia das dificuldades da vida dos dois, marcada pelo acre sabor de não conseguirem impor suas próprias vontades. O chocolate estará presente, daí em diante, em diversas cenas, mas apenas pontuando a luta de uma empresa, que beira a falência, para conquistar novos clientes e manter-se em pé. Em determinado momento, Jean-René revela guardar em um cofre os últimos exemplares de um chocolate que não sabe ter sido Angélique que fez e que “você coloca na boca e o palato se ilumina”. Em outro, Angélique ensina os funcionários da fábrica a produzir chocolates, dando dicas de como, por exemplo, picar a menta fresca ou então criar um chocolate branco com chá verde. São cenas que homenageiam de certa forma a disposição para criar e a culinária enquanto arte, mas que contraditoriamente não almejam a mesma vivacidade enquanto cinema.
Mostra “Straub-Huillet” – Pouco divulgada segue em cartaz, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), até o dia 29 de janeiro, uma programação imperdível que reúne 40 filmes dos franceses Jean-Marie Straub e Danièle Huillet. “Straub-Huillet” é a primeira mostra no Brasil dedicada à obra da dupla de cineastas, que produziram juntos diversas obras e estiveram casados de 1959 até a morte de Danièle, em 2006. Todos os filmes serão projetados em seus formatos originais (35 mm, 16 mm e betadigital), com legendas em português. Entre as obras selecionadas estão 26 filmes que os dois realizaram juntos entre 1962 e 2006 (destaque para “Crônica de Anna Magdalena Bach”, “Da Nuvem à Resistência”, “Esses Encontros com Eles” e “Relações de Classe”); 9 dirigidos por Jean Marie após a morte de Danièle (“Joachim Gatti”, “Um Herdeiro”, “O Inconsolável”, entre outros); e 5 que mostram o processo de trabalho do casal (“Onde Jaz o Teu Sorriso”, de Pedro Costa). Conhecidos por um trabalho voltado principalmente para a adaptação de autores consagrados, como Bach, Kafka, Brecht, Pavese, Cézanne, Jean-Marie e Danièle realizam um cinema muito autoral e que chama atenção pelos planos longos e poucos diálogos. A programação conta também com debates e o lançamento de um catálogo com textos dos cineastas e ensaios sobre sua obra. Mais informações estão no site