Chez Cultura
CINEMAPor: Bruno Mello Castanho
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“O Filho da Noiva” (2001) é daqueles filmes que seguramente acabariam sendo abordados nesta coluna em algum momento. Apesar de não ter a gastronomia como protagonista, o longa dirigido por Juan José Campanella (o mesmo do recente “O Segredo dos Seus Olhos”), além de ser uma das unanimidades do chamado novo cinema argentino, aborda outra faceta dos bastidores da arte culinária: aquela do administrador que precisa levar seu restaurante adiante. Assim, em meio à crise econômica que atinge o país, Rafael Belvedere (interpretado mais uma vez por Ricardo Darín), se esforça para manter em pé seu estabelecimento, uma cantina italiana, vivendo em meio a dificuldades financeiras, problemas com fornecedores e diversas burocracias diárias, talvez, similares àquelas do produtor de cinema que necessita viabilizar um filme. Portanto, não esperem uma narrativa repleta de menções à gastronomia enquanto arte. Aqui, estamos diante da mercantilização do processo, responsável também, como em qualquer outra área, pela desumanização do trabalho e entrave à verve criativa.
Assim, o alto preço do queijo mascarpone, utilizado no Tiramisú - típica sobremesa italiana – obriga Rafael a utilizar um queijo mais barato, comprometendo a qualidade da iguaria. E, aos poucos, o espaço para a inventividade vai se perdendo, impossibilitando, por exemplo, que um restaurante familiar, que mantém uma original receita de Tagliatelli dentro de um parmesão escavado, sobreviva. Rafael é obrigado a lidar com a pressão de megainvestidores que querem comprar sua cantina e transformar em mais um ponto de lucro. É por isso que uma das mais acertadas metáforas do filme esteja logo na primeira cena, quando Rafael, ainda criança, se veste de Zorro após ser perseguido, ao lado de um amigo, por garotos mais velhos. Mais pra frente, esse colega, Juan Carlos (Eduardo Blanco), surge na narrativa para acompanhar e comentar o drama de Rafael, que resolve vender o restaurante para investir em sua vida pessoal. Ao saber desse fato e que todos os funcionários seriam demitidos pelos compradores, Juan Carlos lamenta: “Os maiores ainda batem nos menores. Tudo continua igual”. Explica-se, assim, a figura do herói, defensor dos fracos e oprimidos.
![]() Deste, que talvez seja o viés mais interessante do roteiro, desdobram-se outros, ligados essencialmente à vida amorosa e familiar de Rafael, que estão conturbadas justamente devido à energia que o trabalho excessivo lhe suga. Seu pai, Nino Belvedere (Héctor Alterio), visita todos os dias a esposa, Norma (Norma Aleandro) - vítima de Mal de Alzheimer e internada numa casa de repouso – que Rafael já não vê há um ano. Após insistência do pai, ele resolve visitá-la, após saber que é aniversário dela. A partir daí, é estabelecido o núcleo mais melodramático do filme, representado pela força devastadora da doença e pela decisão de Nino de casar com Norma na Igreja, segundo ele única coisa que não deu a ela, por princípios. No entanto, por mais que minha primeira inclinação seja rejeitar alguns momentos piegas do longa, em que a música enfatiza a condição dramática do ser humano, Juan José Campanella consegue dosar com habilidade as transições de gênero, indo destes momentos a passagens cômicas bastante acertadas, que provocam um certo distanciamento providencial. Da mesma forma, há, por exemplo, críticas à Igreja, que também já foi contaminada pela ânsia lucrativa e transforma o sacramento do matrimônio em negócio.
Portanto, apesar de se filiar a um filão mais comercial de cinema, refletido, por exemplo, em uma evidente propaganda do Burger King no meio do filme, “O Filho da Noiva” consegue, de certa forma, ir além do mero entretenimento, ao lidar com uma narrativa singela e recursos de linguagem interessantes. O próprio espaço publicitário dado à rede de hambúrgueres é ironizado sutilmente, pois, enquanto pai e filha comem no Burger King, o diálogo que se estabelece revela a condição mercantilizada da arte. A garota, que acabara de ganhar um concurso de poesias na escola, conta para o pai que sua tia disse que ela morreria de fome fazendo poesia. E a resposta de Rafael não poderia ser outra: “Então come esse lanche, enquanto é tempo”. É assim que Campanella admite tristemente estar se vendendo, mas mantêm o bom humor, tão característico do filme. Porém, essa “prostituição” se acentuaria ao longo de sua carreira, com a direção de seriados norte-americanos e a diluição de alguns traços autorais interessantes, quase imperceptíveis, por exemplo, no último “O Segredo dos Seus Olhos”, que parece se render ao fetiche hollywoodiano por efeitos mirabolantes e fórmulas narrativas desgastadas. Alguns desses clichês já estão presentes em “O Filho da Noiva”, como por exemplo, o fato de Rafael ter um enfarte que o fará lidar com a vida de outra maneira. Todavia, mesmo esses lugares comuns estão diluídos naturalmente na história, pela qual o cineasta certamente mantém uma estreita ligação afetiva, já que na época sua mãe também sofria de Alzheimer. Não há também como não destacar o desempenho do elenco, com destaque para a impressionante Norma Aleandro, em uma contida interpretação para a progressiva perda de memória de sua personagem. Contudo, o principal acerto do longa é lidar com os efeitos macroeconômicos sobre as individualidades humanas. E as sequelas disso, tão tristes como a perda da memória - estão na boca de Rafael. Em determinado momento, ele questiona “quando é que não estamos em crise?”. O espectador engole em seco a resposta, pois a vida humana dentro do capitalismo estará sempre em eterna crise, doente. Em outro, lamenta ter trabalhado tanto para ser alguém. Ou ainda, na mais sintomática frase do filme: “os recursos humanos estão se esgotando”. Talvez, por isso, o maior sonho de Rafael seja ir à merda.CINEMA IMPERDÍVEL NA SEMANA
Verão de Clássicos – Para dar início a sua programação de 2012, a Cinemateca Brasileira apresenta a 4ª edição da já tradicional mostra de filmes clássicos, cults e raridades. Serão exibidos, em cópias em película, filmes extremamente variados, das mais diversas épocas, países, gêneros e vetentes. Entre os destaques estão “Quando os Homens são maus”, com Charles Bronson e Lee Marvin no elenco; “Trópicos”, docudrama dirigido pelo italiano Gianni Amico, que era próximo dos cineastas do Cinema Novo; “A Batalha de Argel”, de Gillo Pontecorvo, um dos maiores filmes políticos já feitos; “Armadilha do Destino”, de Roman Polanski, entre outros. Além disso, haverá um programa especial em homenagem ao cineasta espanhol Carlos Saura, por ocasião de seu 80º aniversário, com a exibição integral de sua célebre Trilogia Flamenca, composta por “Bodas de Sangue”, “Carmen” e “Amor Bruxo”. A mostra “Verão de Clássicos” acontece de 11 de janeiro a 27 de fevereiro. Mais informações e a programação completa estão no site http://www.cinemateca.com.br/. |


Portanto, apesar de se filiar a um filão mais comercial de cinema, refletido, por exemplo, em uma evidente propaganda do Burger King no meio do filme, “O Filho da Noiva” consegue, de certa forma, ir além do mero entretenimento, ao lidar com uma narrativa singela e recursos de linguagem interessantes. O próprio espaço publicitário dado à rede de hambúrgueres é ironizado sutilmente, pois, enquanto pai e filha comem no Burger King, o diálogo que se estabelece revela a condição mercantilizada da arte. A garota, que acabara de ganhar um concurso de poesias na escola, conta para o pai que sua tia disse que ela morreria de fome fazendo poesia. E a resposta de Rafael não poderia ser outra: “Então come esse lanche, enquanto é tempo”. É assim que Campanella admite tristemente estar se vendendo, mas mantêm o bom humor, tão característico do filme. Porém, essa “prostituição” se acentuaria ao longo de sua carreira, com a direção de seriados norte-americanos e a diluição de alguns traços autorais interessantes, quase imperceptíveis, por exemplo, no último “O Segredo dos Seus Olhos”, que parece se render ao fetiche hollywoodiano por efeitos mirabolantes e fórmulas narrativas desgastadas.
Alguns desses clichês já estão presentes em “O Filho da Noiva”, como por exemplo, o fato de Rafael ter um enfarte que o fará lidar com a vida de outra maneira. Todavia, mesmo esses lugares comuns estão diluídos naturalmente na história, pela qual o cineasta certamente mantém uma estreita ligação afetiva, já que na época sua mãe também sofria de Alzheimer. Não há também como não destacar o desempenho do elenco, com destaque para a impressionante Norma Aleandro, em uma contida interpretação para a progressiva perda de memória de sua personagem. Contudo, o principal acerto do longa é lidar com os efeitos macroeconômicos sobre as individualidades humanas. E as sequelas disso, tão tristes como a perda da memória - estão na boca de Rafael. Em determinado momento, ele questiona “quando é que não estamos em crise?”. O espectador engole em seco a resposta, pois a vida humana dentro do capitalismo estará sempre em eterna crise, doente. Em outro, lamenta ter trabalhado tanto para ser alguém. Ou ainda, na mais sintomática frase do filme: “os recursos humanos estão se esgotando”. Talvez, por isso, o maior sonho de Rafael seja ir à merda.
Verão de Clássicos – Para dar início a sua programação de 2012, a Cinemateca Brasileira apresenta a 4ª edição da já tradicional mostra de filmes clássicos, cults e raridades. Serão exibidos, em cópias em película, filmes extremamente variados, das mais diversas épocas, países, gêneros e vetentes. Entre os destaques estão “Quando os Homens são maus”, com Charles Bronson e Lee Marvin no elenco; “Trópicos”, docudrama dirigido pelo italiano Gianni Amico, que era próximo dos cineastas do Cinema Novo; “A Batalha de Argel”, de Gillo Pontecorvo, um dos maiores filmes políticos já feitos; “Armadilha do Destino”, de Roman Polanski, entre outros. Além disso, haverá um programa especial em homenagem ao cineasta espanhol Carlos Saura, por ocasião de seu 80º aniversário, com a exibição integral de sua célebre Trilogia Flamenca, composta por “Bodas de Sangue”, “Carmen” e “Amor Bruxo”. A mostra “Verão de Clássicos” acontece de 11 de janeiro a 27 de fevereiro. Mais informações e a programação completa estão no site