Chez Cultura

MÚSICA
Por: Pedro Alexandre Sanches

Brasil a Gosto




Ana Luíza Trajano, proprietária e chef do Brasil a Gosto, trata a trilha sonora de seu restaurante com o cuidado e a delicadeza com que cuida de todo o conceito do espaço. "Aqui só toca música brasileira", ela afirma, perempatória. "E, se for alguma coisa internacional, tem que ser com arranjo brasileiro, ou em homenagem ao Brasil."
 
A seleção musical, por estranho que pareça, é feita por um italiano, Emmanuele Cucchi. "Ele pesquisa muito, viaja pelo Brasil afora, e uma vez por ano vem atualizar a trilha", diz Ana. Conhecido artisticamente como Nu Braz, Emmanuele é músico e cantor (de música brasileira), filho da cantora italiana Anna d'Amico. Abastece Ana de extenso repertório, mas é ela que o personaliza, na seleção.
 
Do balaio de Nu Braz vêm variedades que vão de sumidades como Elis Regina, Clara Nunes, Marcos Valle, Beth Carvalho, Gilberto Gil, Juca Chaves, Nara Leão, João Bosco, Djavan, Joyce, Angela Ro Ro e Luiz Melodia a um elenco mais contemporâneo, e predominantemente carioca, com Seu Jorge, Moreno Veloso, Orquestra Imperial, Roberta Sá, Thalma de Freitas, Cordão do Boitatá, Céu, Lucas Santana.
 
A lista passa também por obscuridades do passado, como Orlandivo, Pingarilho, Nilo Amaro & Seus Cantores de Ébano, aparentemente sem preconceitos. "Nega de Obaluaê" (1975), um samba-rock interrpetado por um insuspeito Wando, é uma das delícias que tocam durante a visita da reportagem, entre "Quaquaraquaquá", com Elis, "Não Deixe o Samba Morrer", com Alcione e Cássia Eller, "Palco", com Gil, e "Verdade", com Zeca Pagodinho.
 
Ana parece enfrentar com braveza a hostilidade que, às vezes, acomete o público brasileiro, contra sua própria música, e contra si próprio. "Já aconteceu de gente falar 'o cardápio está muito brasileiro', 'eu queria uma música um pouco mais lounge', 'olha, tá tudo ótimo, mas você precisa rever um pouco a trilha sonora'", ela conta. "Eu digo: 'Acho que você veio para o lugar errado', não com essas palavras, mas basicamente isso. Sei fazer outros pratos, mas só faço um cardápio se for 100% brasileiro, é o trabalho que escolhi fazer como propósito de vida. Agora, graças a Deus, a gente está muito na moda, a pessoa pode não gostar, mas tem vergonha de falar mal."